A FIGURA DO SENSEI
Em homenagem ao Dia do professor.

KARATE-DŌ NOS JOGOS OLÍMPICOS?
Mais uma vez na corrida pela vaga nos Jogos Olímpicos.

KUMITE, O TERCEIRO PILAR
Clique e confira mais sobre esta prática dentro da arte marcial.

domingo, 30 de outubro de 2011

5. O APRENDIZADO NO KARATE-DO

Osu [押忍]!

Mais que uma forma de luta, o Karate-Dō [空手道] é uma disciplina de desenvolvimento pessoal. Muitos karateka [空手家] se perguntam, “como ocorre esse desenvolvimento se nós só treinamos chutes, socos, bloqueios, esquivas, etc?!”, associando esse desenvolvimento apenas aos aspectos físicos (força, desenvolvimento motor, flexibilidade, entre outras características). De fato, esse crescimento é importante, pois o corpo é a ferramenta pela qual o sensei [先生] começa a trabalhar com seu aluno, mas não a única. Apenas é a mais óbvia.

O trabalho no Karate-Dō [空手道] é uma via interna (mente e espírito) que se dá através da via externa (corpo), pois o praticante deve superar suas próprias limitações físicas para atingir novos patamares e dominar novos aspectos da arte marcial. Essas conquistas são representadas de maneira muito simples, as faixas de graduação para Kyū [級] ou Dan [段]. Há uma diferença muito grande entre essas duas, que será abordada em um texto futuro.

Mas não só de barreiras físicas é forjado o Karate-Dō [空手道]. Quando o aluno entra no Dōjō [道場], faz uma reverência ao local, a qual é repetida ao cumprimentar o professor. Durante uma aula, esse mesmo aluno deve respeitar a figura do professor e as orientações que lhe são passadas, sempre questionando quando ocorrerem dúvidas, claro. Esse é um exercício de etiqueta, no qual exercemos e praticamos nossa educação e respeito ao próximo e a quem nos orienta. Mas, acima de tudo, é um exercício de humildade. Uma ferramenta mais sutil que o treinamento físico, mas sempre presente na prática.

Ao ouvir e respeitar o professor, nos submetemos aos seus ensinamentos. Reconhecemos nele uma figura importante, não por ter maior conhecimento ou habilidades, mas por estar naquele local, à nossa disposição, oferecendo orientações. Mesmo um karateka [空手家] de 5º Dan (godan [五段]) faz reverência ao professor presente no local, independente se este possui uma graduação hierarquicamente inferior de 4º Dan (yondan [四段]), por exemplo. No momento em que nos curvamos para fazer a reverência, reconhecemos que somos aprendizes, não importa nosso grau de instrução.

Há quem não se adapte à estrutura das aulas de Karate-Dō [空手道], as quais possuem um caráter vertical e pouco mais rígido do que outros modelos educacionais. É compreensível, pois, para que o aluno se dedique por completo, é necessário abandonar o egocentrismo e se entregar. Alguns, ao entrar em atividades novas, procuram dar o melhor de si e chamar a atenção do professor e dos colegas. Isso é muito comum dentro de um Dōjō [道場], mas é preciso entender que a aula não é voltada para um aluno específico, e sim para todos.

Nenhum aluno é mais importante que os outros. Nenhum aluno é melhor que os outros. Todos os alunos devem se esforçar igualmente, não para serem melhores ou para se destacar, mas para crescerem dentro de sua própria prática. Além disso, a única comparação que deve existir é consigo mesmo: ao olharmos para o lado, não nos comparamos com o colega, mas procuramos nele qualidades que nos auxiliem a progredir no nosso próprio caminho (Dō [道]).

Esse desprendimento do egocentrismo e entrega à prática é um dos desafios que o karateka [空手家] encara constantemente, independente de sua graduação.

Como podemos observar, são diversos os meios de desenvolvimento do Karate-Dō [空手道]. O mais óbvio deles é a prática física, mas elementos que envolvem respeito, etiqueta, humildade e desprendimento, muito mais sutis, ajudam a compor essa arte marcial.

Osu [押忍]!

Brandel Filho [ブランデル フィリオ]

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REFERÊNCIAS
FUNAKOSHI, G. Karatê-Dó: O meu modo de vida. São Paulo: Cultrix, 2010. 7. ed.
FUNAKOSHI, G. Karate-Dō Kyōhan: The master text. Tokyo: Kodansha International, 1973.

NOVO PADRÃO DE ESCRITA NO SITE

Osu [押忍]!

Como vocês puderam acompanhar, caros leitores e leitoras, nosso site sofreu uma reformulação em seus textos. A partir de agora a maioria das publicações desse espaço farão uso de ideogramas Kanji [漢字][1] e Kana [仮名][2], portanto, sugerimos que seja instalado no seu computador o "suporte para idioma japonês / Nihongo [日本語][3]" a fim de que seja possível obter uma visualização correta.

Além disso, utilizaremos o sistema Hebon-shiki rōmaji [ヘボン式ローマ字][4] para a transcrição fonética das palavras japonesas. Isso se faz necessário para que a tradução e interpretação de tais termos estejam em conformidade com as normas de adaptação estrangeira. Muitas das palavras não estarão de acordo com a acentuação e regras ortográficas da Língua Portuguesa, e sim, representando o que seria uma pronúncia da Língua Japonesa.

Com isso pretendemos enriquecer os textos aqui disponibilizados, aprofundando mais as discussões e apontamentos. Quaisquer comentários e críticas construtivas serão muito bem recebidos para ajudar na permanente construção do site Mãos do Vazio.

Osu [押忍]!

Brandel Filho [ブランデル フィリオ]

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[1] Kanji [漢字] – Caracteres chineses.
[2] Kana [仮名] – Escrita silábica japonesa.
[3] Nihongo [日本語] – Língua japonesa.
[4] Hebon-shiki rōmaji [ヘボン式ローマ字] – Sistema Hepburn de romanização.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

4. A IMPORTÂNCIA DE PRATICAR KIHON

Osu [押忍]!

Como dito previamente em outro texto, o ensino do Karate-Dō [空手道] se fundamenta em três pilares essenciais, sendo o kihon [基本] um deles. Kihon [基本] significa fundamento, base, padrão e no Karate-Dō [空手道] é um treinamento individual, no qual o karateka [空手家] repete os movimentos em busca do aprimoramento.





Os diferentes estilos de Karate-Dō [空手道] possuem kihon [基本] próprios, fundamentados nos modelos propostos por mestres dos estilos primordiais de Okinawa [沖縄] (Naha-Te [那覇手], Shuri-Te [首里手] e Tomari-te [泊手]). O estilo Shōtōkan [松濤館] possui um kihon [基本] com gestos mais retos e pontuais, como característico das linhas Shuri-Te [首里手] e Tomari-te [泊手], influenciadas pelo mestre Ankō Itosu [安恒糸洲]. Tal modelo de kihon [基本] é presente também no estilo Wadō-ryū [和道流], inspirado no Shōtōkan [松濤館]. O Gōjū-ryū [剛柔流] apresenta em seu kihon [基本] uma maior gama de gestos circulares e indiretos, originados da linha Naha-Te [那覇手] de mestre Kanryō Higaonna [寛量東恩納], enquanto o Shitō-ryū [糸東流] é caracterizado por uma mescla de ambas as características. Poderiam ser citados ainda muitos estilos de Karate-Dō [空手道] e de kihon [基本].

O Karate-Dō [空手道] é uma prática de origem guerreira e, como tal, o combate possui um importante papel em seu desenvolvimento. E, para que o karateka [空手家] esteja preparado para o combate, deve ter uma base sólida e estruturada, ou seja, um kihon [基本] firme. Com fundamentos fortes, executa-se um Kata [形] forte e um kumite [組手] forte.


Após alguns anos de prática, é comum ouvir alguns praticantes mais graduados comentarem que o kihon [基本] é um treino muito reto, sem nuances a se explorar e, por vezes, chato. De fato, treinar os fundamentos no Karate-Dō [空手道], tal qual ocorre em muitas outras práticas orientais que tiveram influência japonesa, é algo muito técnico, específico e rígido. Mas isso não deve ser encarado como algo negativo. 


Através dos exercícios de kihon [基本], poderão ser suprimidas as mais elementares deficiências de movimentação e postura, trabalhando simultaneamente a percepção da necessidade de coordenar o corpo, agindo em sintonia com a mente e o espírito. É um processo de desenvolvimento global, no qual toda a energia do karateka [空手家] se encontra a serviço da técnica.


Não se trata apenas de desenvolver o corpo, mas o ser de forma integral. Entendendo o kihon [基本], entendemos que necessitamos de constante polimento e refinamento. Concentrando-se nessa prática, aprendemos a importância do desapego de nossos vícios e a nos manter centrados no caminho do guerreiro.


Reforçando, kihon [基本] significa fundamento. Esquecer ou desvalorizar os fundamentos de sua prática, seja ela qual for, pode significar a estagnação e até mesmo um retrocesso no desenvolvimento. Um médico que não se preocupa com os fundamentos da medicina não salva vidas. Um engenheiro que esquece seus fundamentos, não ergue estruturas. Um karateka [空手家] que esquece o kihon [基本] não é vitorioso na batalha mais importante: aquela que é travada consigo mesmo.


Osu [押忍]!


Brandel Filho [ブランデル フィリオ]

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REFERÊNCIAS

AGUIAR, J. Karatê Shito-ryu: os grandes mestres, os katas, entrevistas. São Paulo: Geográfica Editora, 2008.


CAMPS, H.; CEREZO, S. Estudio técnico comparado de los Katas de Karate. Barcelona: Editorial Alas, 2005.


FUNAKOSHI, G. Karatê-Do Kyohan: The Master Text. Tóquio: Kodansha International, 1973.


HIGAONNA, M. Traditional Karatedo Okinawa Goju-Ryu: Performances of the Kata. Tóquio: Minamato Researchs/Japan Publications, 1986. V.2.


NAKAYAMA, M. O Melhor do Karatê: Visão abrangente, práticas. São Paulo: Editora Cultrix, 2000a. V. 1, 11 v.


REID, H.; CROUCHER, M. O caminho do guerreiro: o paradoxo das artes marciais. São Paulo: Cultrix, 2004.


SHINJYO, K.; SENAHA, S.; ONAGA,Y. Three Major Schools of Okinawa Karate. Lake Forest, CA: YOE Incorporated, 2004. 2 DVD. 


TOGUCHI, S. Okinawan Goju-ryu: Fundamentals of Shorei-kan Karate. Burbank: Ohara Publications, 1976.