A FIGURA DO SENSEI
Em homenagem ao Dia do professor.

KARATE-DŌ NOS JOGOS OLÍMPICOS?
Mais uma vez na corrida pela vaga nos Jogos Olímpicos.

KUMITE, O TERCEIRO PILAR
Clique e confira mais sobre esta prática dentro da arte marcial.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

2. EXPLORANDO O VAZIO NO KARATE-DO

Osu [押忍]!

Olá a todos. Como comentamos no post anterior, a prática do Karate-Dō [空手道] se apóia no ideal do Vazio. Mas então, o que é esse Vazio? Vamos tentar explicar aqui um pouco mais desse conceito hoje.

De acordo com os pensamentos Taoísta e Budista, o Vazio é o espaço, o silêncio, é a ausência que permite a presença de todas as coisas, que abrange todas as formas. É a possibilidade de que tudo se manifeste. Por exemplo, antes de qualquer som que escutamos, existe um silêncio. Esse silêncio não é ausência do som, mas a potencialidade de que o som se manifeste. Se relacionarmos ao espaço, trata-se da potencialidade de que objetos lhe ocupem. O Vazio é a potencialidade que está na origem de tudo.

O Gorintō [五輪等], os cinco elementos da cultura mística do Budismo, é dividido em Terra, Água, Ar, Fogo e Vazio. A Terra se refere ao corpo e às pessoas; a Água se manifesta nas emoções, nos aspectos vitais e energéticos; o Fogo representa a mente e o pensamento; o Ar está relacionado à cultura e às tradições, à intuição; e o Vazio é o elemento que conecta e reúne todos os demais, representando a Consciência, a Iluminação.


Por isso é tão importante no Karate-Dō [空手道]. Aquele que esvazia sua mente se abre a todas as potencialidades do momento, sem julgamento ou preconceito, apenas adapta-se de acordo com a situação, reunindo as qualidades de todos os elementos em suas (re)ações. Mais do que técnicas de combate, o karateka [空手家] deve levar isso a todas as esferas de sua vida, mantendo-se centrado e aberto às possibilidades que surgem, afinal,  Karate-Dō não se faz apenas no Dōjō [道場].


Mas como manifestar isso?

Karate-Dō surgiu em Okinawa [沖縄] a partir de práticas locais (Te ou Ti []) mescladas a práticas chinesas de artes marciais (Qúan-fà [拳法]). Com base nessa influência, as técnicas de luta e suas interpretações foram surgindo em algumas cidades, como Naha [那覇], Shuri [首里] e Tomari [泊], que deram origens às formas presentes na época: Naha-Te [那覇手], Shuri-Te [首里手] e Tomari-te [泊手]. Estas, desenvolveram-se para formar os estilos Shōrin [少林], que vem do Shàolín [少林] chinês e trabalha os aspectos mais externos e físicos da arte; e o estilo Shōrei [少霊], originado de práticas chinesas internas (aspectos mentais, espirituais e vitais), tais como Xíng-yì-qúan [形意拳], Bágùa [八卦], Nèi-gong [内功] e Tài-jí-qúan [太極拳].

O Naha-Te, técnica nascida na cidade de Naha, trabalha principalmente os aspectos internos, enquanto o Shuri-Te é mais focado em aspectos externos e o Tomari-te possui elementos tanto internos quanto externos em sua prática. Os  Kata [形] Seishan [セイシャン], Gankaku [岩鶴] e Tenshō [転掌], tem sua origem no Naha-Te [那覇手], enquanto outros como Bassai [抜砦], Kūshankū [公相君] e Kankū-Dai [観空大]  nos demais. Como o treino de Kata é fundamental para o Karate-Dō, pois reúne interpretações do próprio kihon [基本] (fundamento, base, padrão) e nos prepara para o kumite [組手] (luta, combate), torna-se um dos possíveis meios para o desenvolvimento de nosso Vazio.

No livro ‘Karate-Dō Nyūmon’ [空手道入門] nos é explicitado que ambos os aspectos, Shōrin [少林] e Shōrei [少霊], devem ser cultivados em equilíbrio. Isso poderia nos manter centrados e abertos às possibilidades, ou seja, entregues ao Vazio. Tomando como base o Taoísmo, ao nos mantermos equilibrados, até o corpo se torna menos suscetível a doenças.

Osu [押忍]!


Brandel Filho [ブランデル フィリオ]


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REFERÊNCIAS

CAMPS, H।; CEREZO, S. Estudio técnico comparado de los Katas de Karate. Barcelona: Editorial Alas, 2005.

CHIA, M; Li, J। A Estrutura Interior do Tai Chi। São Paulo: Pensamento, 2005. 3. Ed.


FROSI, T। Shorin e Shorei: a herança chinesa. Disponível em: http://karatescience.esporteblog.com.br/19574/ESPECIAL-Shorin-e-Shorei-a-heranca-chinesa/

FUNAKOSHI, G. Karatê-Do Nyumon: Texto Introdutório do Mestre. São Paulo: Cultrix, 1999.

KIT, W. K. O Livro Completo do Tai Chi Chuan. São Paulo: Pensamento, 2010. 5. Ed.

MINICK, Michael. O Pensamento Kung-Fu. São Paulo: Artenova, 1974.

MUSASHI, M. Gorin No Sho: O Livro de Cinco Anéis. São Paulo: Cultura Editores Associados, 1996.

terça-feira, 26 de julho de 2011

ARTIGOS PUBLICADOS

Osu [押忍]!

Nestas duas últimas semanas foram publicados dois artigos acadêmicos escritos por mim,  em parceria com o mestrando e professor de Karate Tiago Frosi e as professoras Janice Mazo e Cláudia Lima da UFRGS, no periódico on-line EFDeportes. Confiram os resumos abaixo:

Kata de karate: a cultura nos shiteigata da World Karate Federation
O Karate é uma disciplina de desenvolvimento pessoal através de práticas de luta, originada em Okinawa, no Japão. Um dos alicerces dessa disciplina são os Kata, exercícios constituídos por sequências pré-determinadas de técnicas que simulam combates contra vários adversários. As técnicas que compõem o Kata foram a principal forma de manutenção das tradições do Karate. Este estudo trata de analisar aspectos culturais relacionados aos Shiteigata, os exercícios formais obrigatórios exigidos nas competições oficiais promovidas pela WKF. Foi realizado um estudo histórico para levantamento de informações sobre a natureza dos Kata de Karate em sua dimensão cultural, procurando-se estabelecer relações entre os costumes e práticas culturais orientais nessa prática corporal.
http://www.efdeportes.com/efd158/kata-de-karate-a-cultura-nos-shiteigata.htm

Cinesiologia dos Shiteigata Shōtōkan: análise do movimento Seiken Choku Zuki Chudan
O objetivo deste trabalho é realizar uma análise cinesiológica do soco direto do Karate. Tal técnica foi selecionada após a realização de um levantamento na literatura sobre a freqüência de repetição dos golpes dos Kata Jion e KankūDai. Os grupos musculares predominantemente ativados são, no braço que golpeia, depressores, rotadores superiores e abdutores da cintura escapular, flexores e flexores horizontais do ombro, extensores do cotovelo e pronadores da radioulnar. O benefício mais claro desse estudo é possibilitar um treinamento de força direcionado para grupos musculares, apresentados que atuam diretamente na execução do soco de Karate.
Quem se interessar e quiser se aprofundar mais na leitura, basta seguir os links postados acima e ler os artigos completos.

Osu [押忍]!

Brandel Filho [ブランデル フィリオ]

segunda-feira, 25 de julho de 2011

1. MÃOS VAZIAS OU MÃOS DO VAZIO? [Atualizado]

Osu [押忍]!

Hoje debateremos sobre a tradução do nome 
Karate-Dō [空手道] e suas implicações.


O termo Karate-Dō [空手道] é comumente traduzido para o ocidente como “Caminhos das Mãos Vazias”, levando-se em conta que é composto por três kanji [漢字]: Kara (空), que significa “Vazio”; Te (手), que significa “Mão(s)”; e Dō (道), que significa “Caminho” ou "Via". Aplicando certa lógica (muito presente na internet), uma possível interpretação é de que o Karate-Dō [空手道] se utiliza das mãos nuas, ou seja, não trabalha com armas em suas técnicas. O “caminho” aqui traduzido é interpretado como as muitas técnicas que é possível executar. 


Essa interpretação é correta? Vamos refletir um pouco.

O Karate-Dō [空手道] faz parte do Budō [武道] moderno. Dentro desse paradigma, o caractere Dō [道], que significa ‘A Via’ ou ‘O Caminho’, passou a ser usado no Período Meiji [明治] em substituição ao termo Jutsu [術], anteriormente referido apenas à técnica de luta. Após essa substituição, um sentido filosófico mais amplo foi trazido para as artes marciais japonesas, que visaram preparar as pessoas para todos os aspectos da vida social, não apenas para a guerra. A principal busca no Dō [道] se dá na edificação do cidadão pacífico, como forma de disciplinar o desenvolvimento integral, levando em conta seus aspectos internos (ligados à mente e ao espírito) e externos (ligados ao corpo).

Outro ponto a se destacar é a separação do 
Karate-Dō [空手道] das técnicas com armas, ou seja, do Kobudō [古武道]. Sabe-se que o Kobudō [古武道] se originou na mesma época que o Te [手] ou Tōde [唐手] (nome do antigo Karate [唐手] de Okinawa [沖縄]), quando os agricultores de Okinawa [沖縄] (peichin [親雲上]) utilizaram as ferramentas rurais que possuíam para lutar, ferramentas essas de possível origem chinesa. Apesar de grande parte dos registros ter se perdido nos bombardeios da 2ª Guerra Mundial, os indícios históricos apontam que os peichin [親雲上] desenvolveram o Kobudō [古武道]  de Okinawa a partir do contato com artes de origem chinesa, à mesma época, de forma similar e para o mesmo fim que o Karate-Dō [空手道], sendo as duas artes marciais possíveis irmãs e complementares uma da outra. Além disso, ambas as artes permanecem unidas em muitos estilos, principalmente em Okinawa [沖縄]. Essa “separação” parece se dar quando a arte é levada ao Japão, visto que lá já havia um Kobudō [古武道] próprio de lá. O Shitō-Ryū [糸東流], por exemplo, é um estilo que mantém esta união inalterada até nossos dias.


O caractere Kara (空) significa ‘Vazio’, mas não no sentido de ausência de objetos como interpretamos no ocidente. O vazio aqui representado é um dos cinco elementos presentes em uma Pagoda da tradição budista, sendo o elemento transcendente que conecta e integra todos os outros quatro, ou seja, simboliza a “Consciência”, a “Iluminação”. Partindo desses ajustes de tradução, quando falamos sobre “Caminho das Mãos Vazias”, nos referimos a um caminho filosófico que nos ampliará a consciência através da prática da arte marcial.


Em conversa recente com um colega meu, também professor de Karate-Dō [空手道], debatemos sobre esse significado e optamos por utilizar a tradução “Caminho das Mãos do Vazio”, representando assim o elemento budista e a filosofia presentes em seu nome. Através do “Caminho das Mãos do Vazio”, podemos desenvolver e ampliar nossa consciência com base nesse elemento budista, rumo a uma formação ética e responsável.


Você ainda pode usar como Mãos Vazias, pois é uma tradução válida, desde que a interprete em sua vertente filosófica, não de forma literal. Apenas trazemos aqui uma nova interpretação.


[ATUALIZADO]

Lendo  o texto do link enviado em nossa primeira postagem, ressalto um trecho que, em minha perspectiva, acho muito importante:

As Mãos do Vazio (空手) são as mãos daquele que nesta Terra não tem inimigos. Esse é o verdadeiro Karate [空手]. 

Confiram o texto de Tiago Frosi nesse link externo, pois vale muito a pena:  
http://pintokaratedojo.wordpress.com/2011/06/22/maos-do-vazio/

Osu [押忍]!


Brandel Filho [ブランデル フィリオ]


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REFERÊNCIAS

CAMPS, H.; CEREZO, S. Estudio técnico comparado de los Katas de Karate. Barcelona: Editorial Alas, 2005.


FROSI, T. Ancinhos, remos e arreios! Post Especial de 1000 Visitantes!!! Disponível em http://karatescience.esporteblog.com.br/10963/Ancinhos-remos-e-arreios-Post-Especial-de-1000-Visitantes/


RATTI, O.; WESTBROOK, A. Segredos dos Samurais: As Artes Marciais do Japão Feudal. São Paulo: Madras, 2006.


NAKAZATO, Jyoen; OSHIRO, Nobuko; MIYAGI, Tokomusa; TUHA, Kiyoshi; KOHAGURA, Yoshinobu; HIGAONNA, Morio; TAIRA, Yoshitaka; SAKUMOTO, Tsuguo. Karatê de Okinawa e Artes marciais com Armas. Disponível em: . Acesso em: 20 jun. 2005.


SHINZATO, Yoshihide; BUENO, Fábio Amador. Kobu-Do: as armas antigas de Okinawa. São Paulo: Editora On-line, 2007.

APRESENTANDO O MDV


Osu [押忍]!

Caros leitores, este blog foi desenvolvido com o intuito de explorar as diversas vertentes filosóficas do Karate-Dō [空手道], trazendo para discussão os temas que permeiam essa brilhante arte marcial. Como o Karate-Dō [空手道], este blog surge de forma multicultural e pluritemática, pois nossos estudos e discussões serão pautados pela ótica da Ciência e da Filosofia. Além de debater sobre seus aspectos técnicos e táticos, trataremos o Karate-Dō [空手道] como uma manifestação da cultura humana, tentando entender suas manifestações nas diversas áreas em que está presente (social, cultural, política, etc.).

Mais do que apenas reunir informações, aplicaremos aqui um pensamento crítico sobre tais ideias, no sentido de refletir e evoluir enquanto budōka [武道家], para que desenvolvamos uma arte completa e forte. Como está escrito no portal da Wadō-Ryū Renmei do Brasil [ブラジル和道流連盟]:


O caminho das artes marciais não deve ser meramente técnica de luta, mas o caminho da paz e harmonia.


Aqui seremos colegas, atuando em uma busca maior, a de nos tornarmos verdadeiros karateka [空手家], preocupados com um futuro consciente e responsável. Não apenas meros lutadores, mas Guerreiros em nossos corações.

Osu [押忍]!


Brandel Filho [ブランデル フィリオ]