A FIGURA DO SENSEI
Em homenagem ao Dia do professor.

KARATE-DŌ NOS JOGOS OLÍMPICOS?
Mais uma vez na corrida pela vaga nos Jogos Olímpicos.

KUMITE, O TERCEIRO PILAR
Clique e confira mais sobre esta prática dentro da arte marcial.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

7. FINAL DE ANO

Desejo a todos um Feliz Natal e próspero Ano Novo. Que a cada ano continuemos a nos renovar e crescer, cultivando o Karate e nossos sentimentos fraternos. Muita luz a todos neste final de ano.


Um maravilhoso ano novo!
Abraços!

Osu!!!
Brandel Filho

sábado, 10 de dezembro de 2011

CURSO DE KATA E YAKUSOKU KUMITE


Convidamos a todos os karateka, dos mais diversos estilos a participar.

Curso de Kata Wado-ryu e Yakusoku Kumite
Dia 17 de dezembro, às 14h
Local: Ginásio 2 da ESEF UFRGS

Será conferido certificado de 4 horas pela participação.

Inicia às 14h e termina às 18h, com intervalo para lanche. Serão abordados os aspectos históricos do estilo Wado-ryu e as nuances presentes nas técnicas, e após, será ministrado um treinamento de Kata básico e avançado, seguido do treino de Yakusoku Kumite, exercício próprio do estilo Wado-ryu.

Contamos com a presença de todos.

sábado, 26 de novembro de 2011

6. PRATICANTE DE KARATE OU KARATEKA?



Osu [押忍]!

É comum o hábito de chamar os praticantes de artes marciais por um nome específico, e o Karate-Dō [空手道] não é exceção, pois quem o pratica é conhecido como karateka [空手家]. No entanto, “karateka [空手家]” e “praticante de karate [空手]” não são termos iguais. Nos países ocidentais não há uma definição muito clara entre estas duas definições, perdendo-se, assim, o significado mais profundo do termo. O segredo disso está nos ideogramas utilizados para escrever a palavra.


Os primeiros ideogramas de karateka [空手家] são simplesmente a escrita do nome Karate [空手], indicando no termo, a ligação com essa arte marcial. O ideograma chave, no entanto, é o que se segue: Ka [家], sufixo que ao ser traduzido literalmente significa "casa", "lar". No entanto, no caso das artes marciais, pode ser interpretado como "especialista", "alguém que se especializou em". Ou seja, um karateka [空手家] é aquele que se tornou "a casa (o lar) onde mora o Karate [空手]".


Partindo disso, podemos entender de fato o que é ser um karateka [空手家]. 


Quando treinamos Karate-Dō [空手道], aos poucos nos tornamos parte dele, bem como ele uma parte de nós. Incorporamos a arte ao nosso dia a dia, passando a agir e pensar de acordo com o que aprendemos ali, seja no treinamento de movimentos ou no conjunto de valores. Quando isso se torna internalizado, não apenas em aspectos físicos, mas mentais e espirituais também, passamos a nos tornar karateka [空手家], pois o que aprendemos no Dōjō [道場] já mora dentro de nós como uma parte essencial. Isso pode ser atingido em tempos diferentes para cada um, de acordo com o nível de comprometimento de cada pessoa. O sufixo "Ka [家]" não depende da cor da faixa ou do número de anos de prática, mas de dedicação e entendimento.


Uma pessoa que treina apenas com o propósito de mudar de faixa e chegar à preta, mas negligencia o estudo da arte que pratica, não passa de um mero “praticante” da arte, enquanto outro aluno (talvez com menor graduação), que praticou e estudou, tornou-se um "especialista" da sua arte. O mesmo pode ocorrer com um graduado que sucumbiu à corrida aos Dan [段], independente de quantos possua.


A diferença entre o "praticante" e um "especialista" é que um aprendeu a fazer os movimentos e se acomodou, enquanto o outro continua a estudar e aprender o máximo que pode. Aqueles que treinam e estudam as suas artes podem ser chamados de Karateka [空手家], pois é esta a verdadeira atribuição trazida pelo sufixo "Ka [家]".

Osu [押忍]!

Brandel Filho [ブランデル フィリオ]


Agradecimentos ao sensei Denis Andretta, pelas contribuições que geraram este texto.

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Referências
MICHAELIS. Dicionário Prático de Japonês-Português. São Paulo: Melhoramentos, 2003.
MICHAELIS. Dicionário Prático de Português-Japonês. São Paulo: Melhoramentos, 2001.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

DESIGN E TEXTOS

Osu [押忍]!

A participação de nossos leitores é muito importante, pois é através dela que (re)descobrimos novas facetas a serem exploradas nos textos. O uso de caracteres da escrita japonesa, bem como das regras de romanização, foram sugestões externas. O mesmo vale para alguns pontos de diversos textos, que foram alterados.

E porque alterar o texto original?

Essas correções ocorrem para que fique disponibilizado o melhor material possível na internet. Por isso, a participação de vocês é fundamental. E, para comemorar essa nova fase, o site teve seu design renovado. Opine, critique e comente os textos, ajudando este espaço, que é de todos nós, a crescer cada dia mais forte, assim como o nosso Karate-Dō [空手道].



Osu [押忍]!


Brandel Filho [ブランデル フィリオ]

domingo, 30 de outubro de 2011

5. O APRENDIZADO NO KARATE-DO

Osu [押忍]!

Mais que uma forma de luta, o Karate-Dō [空手道] é uma disciplina de desenvolvimento pessoal. Muitos karateka [空手家] se perguntam, “como ocorre esse desenvolvimento se nós só treinamos chutes, socos, bloqueios, esquivas, etc?!”, associando esse desenvolvimento apenas aos aspectos físicos (força, desenvolvimento motor, flexibilidade, entre outras características). De fato, esse crescimento é importante, pois o corpo é a ferramenta pela qual o sensei [先生] começa a trabalhar com seu aluno, mas não a única. Apenas é a mais óbvia.

O trabalho no Karate-Dō [空手道] é uma via interna (mente e espírito) que se dá através da via externa (corpo), pois o praticante deve superar suas próprias limitações físicas para atingir novos patamares e dominar novos aspectos da arte marcial. Essas conquistas são representadas de maneira muito simples, as faixas de graduação para Kyū [級] ou Dan [段]. Há uma diferença muito grande entre essas duas, que será abordada em um texto futuro.

Mas não só de barreiras físicas é forjado o Karate-Dō [空手道]. Quando o aluno entra no Dōjō [道場], faz uma reverência ao local, a qual é repetida ao cumprimentar o professor. Durante uma aula, esse mesmo aluno deve respeitar a figura do professor e as orientações que lhe são passadas, sempre questionando quando ocorrerem dúvidas, claro. Esse é um exercício de etiqueta, no qual exercemos e praticamos nossa educação e respeito ao próximo e a quem nos orienta. Mas, acima de tudo, é um exercício de humildade. Uma ferramenta mais sutil que o treinamento físico, mas sempre presente na prática.

Ao ouvir e respeitar o professor, nos submetemos aos seus ensinamentos. Reconhecemos nele uma figura importante, não por ter maior conhecimento ou habilidades, mas por estar naquele local, à nossa disposição, oferecendo orientações. Mesmo um karateka [空手家] de 5º Dan (godan [五段]) faz reverência ao professor presente no local, independente se este possui uma graduação hierarquicamente inferior de 4º Dan (yondan [四段]), por exemplo. No momento em que nos curvamos para fazer a reverência, reconhecemos que somos aprendizes, não importa nosso grau de instrução.

Há quem não se adapte à estrutura das aulas de Karate-Dō [空手道], as quais possuem um caráter vertical e pouco mais rígido do que outros modelos educacionais. É compreensível, pois, para que o aluno se dedique por completo, é necessário abandonar o egocentrismo e se entregar. Alguns, ao entrar em atividades novas, procuram dar o melhor de si e chamar a atenção do professor e dos colegas. Isso é muito comum dentro de um Dōjō [道場], mas é preciso entender que a aula não é voltada para um aluno específico, e sim para todos.

Nenhum aluno é mais importante que os outros. Nenhum aluno é melhor que os outros. Todos os alunos devem se esforçar igualmente, não para serem melhores ou para se destacar, mas para crescerem dentro de sua própria prática. Além disso, a única comparação que deve existir é consigo mesmo: ao olharmos para o lado, não nos comparamos com o colega, mas procuramos nele qualidades que nos auxiliem a progredir no nosso próprio caminho (Dō [道]).

Esse desprendimento do egocentrismo e entrega à prática é um dos desafios que o karateka [空手家] encara constantemente, independente de sua graduação.

Como podemos observar, são diversos os meios de desenvolvimento do Karate-Dō [空手道]. O mais óbvio deles é a prática física, mas elementos que envolvem respeito, etiqueta, humildade e desprendimento, muito mais sutis, ajudam a compor essa arte marcial.

Osu [押忍]!

Brandel Filho [ブランデル フィリオ]

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REFERÊNCIAS
FUNAKOSHI, G. Karatê-Dó: O meu modo de vida. São Paulo: Cultrix, 2010. 7. ed.
FUNAKOSHI, G. Karate-Dō Kyōhan: The master text. Tokyo: Kodansha International, 1973.

NOVO PADRÃO DE ESCRITA NO SITE

Osu [押忍]!

Como vocês puderam acompanhar, caros leitores e leitoras, nosso site sofreu uma reformulação em seus textos. A partir de agora a maioria das publicações desse espaço farão uso de ideogramas Kanji [漢字][1] e Kana [仮名][2], portanto, sugerimos que seja instalado no seu computador o "suporte para idioma japonês / Nihongo [日本語][3]" a fim de que seja possível obter uma visualização correta.

Além disso, utilizaremos o sistema Hebon-shiki rōmaji [ヘボン式ローマ字][4] para a transcrição fonética das palavras japonesas. Isso se faz necessário para que a tradução e interpretação de tais termos estejam em conformidade com as normas de adaptação estrangeira. Muitas das palavras não estarão de acordo com a acentuação e regras ortográficas da Língua Portuguesa, e sim, representando o que seria uma pronúncia da Língua Japonesa.

Com isso pretendemos enriquecer os textos aqui disponibilizados, aprofundando mais as discussões e apontamentos. Quaisquer comentários e críticas construtivas serão muito bem recebidos para ajudar na permanente construção do site Mãos do Vazio.

Osu [押忍]!

Brandel Filho [ブランデル フィリオ]

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[1] Kanji [漢字] – Caracteres chineses.
[2] Kana [仮名] – Escrita silábica japonesa.
[3] Nihongo [日本語] – Língua japonesa.
[4] Hebon-shiki rōmaji [ヘボン式ローマ字] – Sistema Hepburn de romanização.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

4. A IMPORTÂNCIA DE PRATICAR KIHON

Osu [押忍]!

Como dito previamente em outro texto, o ensino do Karate-Dō [空手道] se fundamenta em três pilares essenciais, sendo o kihon [基本] um deles. Kihon [基本] significa fundamento, base, padrão e no Karate-Dō [空手道] é um treinamento individual, no qual o karateka [空手家] repete os movimentos em busca do aprimoramento.





Os diferentes estilos de Karate-Dō [空手道] possuem kihon [基本] próprios, fundamentados nos modelos propostos por mestres dos estilos primordiais de Okinawa [沖縄] (Naha-Te [那覇手], Shuri-Te [首里手] e Tomari-te [泊手]). O estilo Shōtōkan [松濤館] possui um kihon [基本] com gestos mais retos e pontuais, como característico das linhas Shuri-Te [首里手] e Tomari-te [泊手], influenciadas pelo mestre Ankō Itosu [安恒糸洲]. Tal modelo de kihon [基本] é presente também no estilo Wadō-ryū [和道流], inspirado no Shōtōkan [松濤館]. O Gōjū-ryū [剛柔流] apresenta em seu kihon [基本] uma maior gama de gestos circulares e indiretos, originados da linha Naha-Te [那覇手] de mestre Kanryō Higaonna [寛量東恩納], enquanto o Shitō-ryū [糸東流] é caracterizado por uma mescla de ambas as características. Poderiam ser citados ainda muitos estilos de Karate-Dō [空手道] e de kihon [基本].

O Karate-Dō [空手道] é uma prática de origem guerreira e, como tal, o combate possui um importante papel em seu desenvolvimento. E, para que o karateka [空手家] esteja preparado para o combate, deve ter uma base sólida e estruturada, ou seja, um kihon [基本] firme. Com fundamentos fortes, executa-se um Kata [形] forte e um kumite [組手] forte.


Após alguns anos de prática, é comum ouvir alguns praticantes mais graduados comentarem que o kihon [基本] é um treino muito reto, sem nuances a se explorar e, por vezes, chato. De fato, treinar os fundamentos no Karate-Dō [空手道], tal qual ocorre em muitas outras práticas orientais que tiveram influência japonesa, é algo muito técnico, específico e rígido. Mas isso não deve ser encarado como algo negativo. 


Através dos exercícios de kihon [基本], poderão ser suprimidas as mais elementares deficiências de movimentação e postura, trabalhando simultaneamente a percepção da necessidade de coordenar o corpo, agindo em sintonia com a mente e o espírito. É um processo de desenvolvimento global, no qual toda a energia do karateka [空手家] se encontra a serviço da técnica.


Não se trata apenas de desenvolver o corpo, mas o ser de forma integral. Entendendo o kihon [基本], entendemos que necessitamos de constante polimento e refinamento. Concentrando-se nessa prática, aprendemos a importância do desapego de nossos vícios e a nos manter centrados no caminho do guerreiro.


Reforçando, kihon [基本] significa fundamento. Esquecer ou desvalorizar os fundamentos de sua prática, seja ela qual for, pode significar a estagnação e até mesmo um retrocesso no desenvolvimento. Um médico que não se preocupa com os fundamentos da medicina não salva vidas. Um engenheiro que esquece seus fundamentos, não ergue estruturas. Um karateka [空手家] que esquece o kihon [基本] não é vitorioso na batalha mais importante: aquela que é travada consigo mesmo.


Osu [押忍]!


Brandel Filho [ブランデル フィリオ]

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REFERÊNCIAS

AGUIAR, J. Karatê Shito-ryu: os grandes mestres, os katas, entrevistas. São Paulo: Geográfica Editora, 2008.


CAMPS, H.; CEREZO, S. Estudio técnico comparado de los Katas de Karate. Barcelona: Editorial Alas, 2005.


FUNAKOSHI, G. Karatê-Do Kyohan: The Master Text. Tóquio: Kodansha International, 1973.


HIGAONNA, M. Traditional Karatedo Okinawa Goju-Ryu: Performances of the Kata. Tóquio: Minamato Researchs/Japan Publications, 1986. V.2.


NAKAYAMA, M. O Melhor do Karatê: Visão abrangente, práticas. São Paulo: Editora Cultrix, 2000a. V. 1, 11 v.


REID, H.; CROUCHER, M. O caminho do guerreiro: o paradoxo das artes marciais. São Paulo: Cultrix, 2004.


SHINJYO, K.; SENAHA, S.; ONAGA,Y. Three Major Schools of Okinawa Karate. Lake Forest, CA: YOE Incorporated, 2004. 2 DVD. 


TOGUCHI, S. Okinawan Goju-ryu: Fundamentals of Shorei-kan Karate. Burbank: Ohara Publications, 1976.

domingo, 4 de setembro de 2011

3. KATA: AUTODEFESA, ESTILOS E CULTURA

Osu [押忍]!

Os Kata [形] constituíram por muito tempo a principal forma de manutenção das tradições do Karate-Dō [空手道] em Okinawa [沖縄] (ou Tōde [唐手], na época). Através do Kata [形], o karateka [空手家] realizava seu treinamento de autodefesa, contra diversos adversários imaginários. Por esse motivo o praticante deveria entender os significados e a importância dos gestos executados. A esse estudo das seqüências ou análise dos Kata [形], denominamos Bunkai [分解], sendo uma etapa fundamental no treino de Karate-Dō [空手道] até os dias atuais.

EExistem mais de 100 tipos de Kata [形], sem levar em conta as muitas versões que diferentes estilos de Karate-Dō [空手道] adotam em sua prática para um mesmo exercício. O Kata [形] Kūshankū [公相君], por exemplo, é encontrado em diversos estilos, mas executado de maneiras diferentes e, em alguns casos, até com um nome diferente. Não importa o quanto variam esses gestos para cada estilo, mas sim que sejam eficazes e funcionais.

O Karate-Dō [空手道] se desenvolveu em diversos locais de Okinawa [沖縄], em um processo no qual recebeu influência de muitas culturas, e isso influenciou os Kata [形]. As principais cidades de surgimento do Karate-Dō [空手道] (Naha [那覇], Shuri [首里] e Tomari [泊]) desenvolveram estilos diferentes do então chamado Tōde [唐手]: Naha-Te [那覇手], Shuri-Te [首里手] e Tomari-te [泊手].

Na linha Shuri-Te [首里手] são trabalhados aspectos mais externos da arte marcial, ou seja, ligados ao corpo material. Seus golpes são diretos e em pontos vitais do corpo (atemi-waza [当て身]) e suas defesas são angulosas, como ocorre com a defesa Gedan-barai [下段払い]. Alguns Kata [形] desse estilo são Kūshankū [公相君] e Jion [慈恩].



O estilo Naha-Te [那覇手] busca desenvolver os aspectos mais internos do ser, ou seja, mentais e espirituais. Suas técnicas são de curto alcance, com movimentos ora lentos, ora explosivos, além de torções e quebramentos de articulações. O treinamento ainda compreende técnicas de respiração aliadas aos gestos, cuja finalidade é movimentar e canalizar o Ki [気] (energia vital). Exemplos de Kata [形] Naha-Te [那覇手] são Saifa [砕破], Seishan [セイシャン] e Sūpārinpei [壱百零八].


O Tomari-te [泊手] é um estilo que mescla características de ambos os anteriores, apresentando alguma influência do Qúan-fà [拳法] chinês. O deslocamento em seus Kata [形] ocorre normalmente em uma linha central, tanto para ataques quanto para defesas. Alguns Kata [形] são Chintō [岩鶴], Wanshū [王酒] e Unsu [雲手].



Alguns estilos de Karate-Dō [空手道] tiveram os nomes de seus Kata [形] alterados. Isso se deve a uma adaptação do idioma de Okinawa [沖縄] ao japonês, a exemplo do que Gichin Funakoshi [義珍 船越] realizou ao instaurar o estilo Shōtōkan [松濤館]. A série Pin’an [平安]  é equivalente a Heian [平安], Chintō [岩鶴] passou a ser Gankaku [岩鶴], entre muitos outros. A forma de escrita (kanji [漢字]) não foi alterada , mas a pronúncia passou a ser da língua japonesa. A maioria dos estilos, no entanto, utiliza-se ainda da nomenclatura clássica de Okinawa [沖縄], como ocorre com o Gōjū-ryū [剛柔流], Wadō-ryū [和道流] e Shitō-ryū [糸東流] (embora algumas linhagens não sigam esta lógica).

Sendo o Karate-Dō [空手道] um importante elemento da cultura de Okinawa [沖縄], encontramos algumas manifestações dele em áreas diferentes, como na música e no teatro. Okinawa [沖縄] possui um estilo musical típico chamado Eisá [エイサー], o qual utiliza o som de Taiko [太鼓] (tambores) e elaboradas coreografias em suas apresentações. O vídeo abaixo apresenta uma coreografia de Eisá [エイサー] que faz uso de um Kata [形] de Karate-Dō [空手道] (Kūshankū [公相君]) e Kobudō [古武道], uma arte marcial com armas variadas.



A cultura que permeia o Karate-Dō [空手道] é muito rica e seu estudo pode trazer diversos benefícios à nossa prática diária. Adaptando-se de diferentes formas, um conhecimento que já foi voltado exclusivamente para a sobrevivência é hoje ferramenta de desenvolvimento pessoal e caminhos artísticos.

Osu [押忍]!

Brandel Filho [ブランデル フィリオ]

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REFERÊNCIAS

CAMPS, H.; CEREZO, S. Estudio técnico comparado de los Katas de Karate. Barcelona: Editorial Alas, 2005.

FROSI, T. O.; LOPES FILHO, B. J. P.; MAZO. J. Kata de karate: a cultura nos shiteigata da World Karate Federation. Lecturas, Educación Física y Deportes (Buenos Aires), v. 16, n. 158, 2011. Disponível em <http://www.efdeportes.com/efd158/kata-de-karate-a-cultura-nos-shiteigata.htm>

FROSI, T. O.; OLIVEIRA, G. B.; TODT, N. S. Budô e Olimpismo: a confluência de símbolos do oriente e do ocidente na busca de valores para a sociedade moderna. Revista Corpo em Movimento. Canoas: Ed. ULBRA, 2008. v.6, n.1.

NAKAZATO, J.; OSHIRO, N.; MIYAGI, T.; TUHA, K.; KOHAGURA, Y.; HIGAONNA, M.; TAIRA, S.; SAKUMOTO, T. Okinawa Karate and Martial Arts with Weaponry. Disponível em: www.wonder-okinawa.jp/023/eng, acesso em: 20 jun. 2005.

SHINJYO, K.; SENAHA, S.; ONAGA,Y. Three Major Schools of Okinawa Karate. Lake Forest, CA: YOE Incorporated, 2004. 2 DVD.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

2. EXPLORANDO O VAZIO NO KARATE-DO

Osu [押忍]!

Olá a todos. Como comentamos no post anterior, a prática do Karate-Dō [空手道] se apóia no ideal do Vazio. Mas então, o que é esse Vazio? Vamos tentar explicar aqui um pouco mais desse conceito hoje.

De acordo com os pensamentos Taoísta e Budista, o Vazio é o espaço, o silêncio, é a ausência que permite a presença de todas as coisas, que abrange todas as formas. É a possibilidade de que tudo se manifeste. Por exemplo, antes de qualquer som que escutamos, existe um silêncio. Esse silêncio não é ausência do som, mas a potencialidade de que o som se manifeste. Se relacionarmos ao espaço, trata-se da potencialidade de que objetos lhe ocupem. O Vazio é a potencialidade que está na origem de tudo.

O Gorintō [五輪等], os cinco elementos da cultura mística do Budismo, é dividido em Terra, Água, Ar, Fogo e Vazio. A Terra se refere ao corpo e às pessoas; a Água se manifesta nas emoções, nos aspectos vitais e energéticos; o Fogo representa a mente e o pensamento; o Ar está relacionado à cultura e às tradições, à intuição; e o Vazio é o elemento que conecta e reúne todos os demais, representando a Consciência, a Iluminação.


Por isso é tão importante no Karate-Dō [空手道]. Aquele que esvazia sua mente se abre a todas as potencialidades do momento, sem julgamento ou preconceito, apenas adapta-se de acordo com a situação, reunindo as qualidades de todos os elementos em suas (re)ações. Mais do que técnicas de combate, o karateka [空手家] deve levar isso a todas as esferas de sua vida, mantendo-se centrado e aberto às possibilidades que surgem, afinal,  Karate-Dō não se faz apenas no Dōjō [道場].


Mas como manifestar isso?

Karate-Dō surgiu em Okinawa [沖縄] a partir de práticas locais (Te ou Ti []) mescladas a práticas chinesas de artes marciais (Qúan-fà [拳法]). Com base nessa influência, as técnicas de luta e suas interpretações foram surgindo em algumas cidades, como Naha [那覇], Shuri [首里] e Tomari [泊], que deram origens às formas presentes na época: Naha-Te [那覇手], Shuri-Te [首里手] e Tomari-te [泊手]. Estas, desenvolveram-se para formar os estilos Shōrin [少林], que vem do Shàolín [少林] chinês e trabalha os aspectos mais externos e físicos da arte; e o estilo Shōrei [少霊], originado de práticas chinesas internas (aspectos mentais, espirituais e vitais), tais como Xíng-yì-qúan [形意拳], Bágùa [八卦], Nèi-gong [内功] e Tài-jí-qúan [太極拳].

O Naha-Te, técnica nascida na cidade de Naha, trabalha principalmente os aspectos internos, enquanto o Shuri-Te é mais focado em aspectos externos e o Tomari-te possui elementos tanto internos quanto externos em sua prática. Os  Kata [形] Seishan [セイシャン], Gankaku [岩鶴] e Tenshō [転掌], tem sua origem no Naha-Te [那覇手], enquanto outros como Bassai [抜砦], Kūshankū [公相君] e Kankū-Dai [観空大]  nos demais. Como o treino de Kata é fundamental para o Karate-Dō, pois reúne interpretações do próprio kihon [基本] (fundamento, base, padrão) e nos prepara para o kumite [組手] (luta, combate), torna-se um dos possíveis meios para o desenvolvimento de nosso Vazio.

No livro ‘Karate-Dō Nyūmon’ [空手道入門] nos é explicitado que ambos os aspectos, Shōrin [少林] e Shōrei [少霊], devem ser cultivados em equilíbrio. Isso poderia nos manter centrados e abertos às possibilidades, ou seja, entregues ao Vazio. Tomando como base o Taoísmo, ao nos mantermos equilibrados, até o corpo se torna menos suscetível a doenças.

Osu [押忍]!


Brandel Filho [ブランデル フィリオ]


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REFERÊNCIAS

CAMPS, H।; CEREZO, S. Estudio técnico comparado de los Katas de Karate. Barcelona: Editorial Alas, 2005.

CHIA, M; Li, J। A Estrutura Interior do Tai Chi। São Paulo: Pensamento, 2005. 3. Ed.


FROSI, T। Shorin e Shorei: a herança chinesa. Disponível em: http://karatescience.esporteblog.com.br/19574/ESPECIAL-Shorin-e-Shorei-a-heranca-chinesa/

FUNAKOSHI, G. Karatê-Do Nyumon: Texto Introdutório do Mestre. São Paulo: Cultrix, 1999.

KIT, W. K. O Livro Completo do Tai Chi Chuan. São Paulo: Pensamento, 2010. 5. Ed.

MINICK, Michael. O Pensamento Kung-Fu. São Paulo: Artenova, 1974.

MUSASHI, M. Gorin No Sho: O Livro de Cinco Anéis. São Paulo: Cultura Editores Associados, 1996.

terça-feira, 26 de julho de 2011

ARTIGOS PUBLICADOS

Osu [押忍]!

Nestas duas últimas semanas foram publicados dois artigos acadêmicos escritos por mim,  em parceria com o mestrando e professor de Karate Tiago Frosi e as professoras Janice Mazo e Cláudia Lima da UFRGS, no periódico on-line EFDeportes. Confiram os resumos abaixo:

Kata de karate: a cultura nos shiteigata da World Karate Federation
O Karate é uma disciplina de desenvolvimento pessoal através de práticas de luta, originada em Okinawa, no Japão. Um dos alicerces dessa disciplina são os Kata, exercícios constituídos por sequências pré-determinadas de técnicas que simulam combates contra vários adversários. As técnicas que compõem o Kata foram a principal forma de manutenção das tradições do Karate. Este estudo trata de analisar aspectos culturais relacionados aos Shiteigata, os exercícios formais obrigatórios exigidos nas competições oficiais promovidas pela WKF. Foi realizado um estudo histórico para levantamento de informações sobre a natureza dos Kata de Karate em sua dimensão cultural, procurando-se estabelecer relações entre os costumes e práticas culturais orientais nessa prática corporal.
http://www.efdeportes.com/efd158/kata-de-karate-a-cultura-nos-shiteigata.htm

Cinesiologia dos Shiteigata Shōtōkan: análise do movimento Seiken Choku Zuki Chudan
O objetivo deste trabalho é realizar uma análise cinesiológica do soco direto do Karate. Tal técnica foi selecionada após a realização de um levantamento na literatura sobre a freqüência de repetição dos golpes dos Kata Jion e KankūDai. Os grupos musculares predominantemente ativados são, no braço que golpeia, depressores, rotadores superiores e abdutores da cintura escapular, flexores e flexores horizontais do ombro, extensores do cotovelo e pronadores da radioulnar. O benefício mais claro desse estudo é possibilitar um treinamento de força direcionado para grupos musculares, apresentados que atuam diretamente na execução do soco de Karate.
Quem se interessar e quiser se aprofundar mais na leitura, basta seguir os links postados acima e ler os artigos completos.

Osu [押忍]!

Brandel Filho [ブランデル フィリオ]

segunda-feira, 25 de julho de 2011

1. MÃOS VAZIAS OU MÃOS DO VAZIO? [Atualizado]

Osu [押忍]!

Hoje debateremos sobre a tradução do nome 
Karate-Dō [空手道] e suas implicações.


O termo Karate-Dō [空手道] é comumente traduzido para o ocidente como “Caminhos das Mãos Vazias”, levando-se em conta que é composto por três kanji [漢字]: Kara (空), que significa “Vazio”; Te (手), que significa “Mão(s)”; e Dō (道), que significa “Caminho” ou "Via". Aplicando certa lógica (muito presente na internet), uma possível interpretação é de que o Karate-Dō [空手道] se utiliza das mãos nuas, ou seja, não trabalha com armas em suas técnicas. O “caminho” aqui traduzido é interpretado como as muitas técnicas que é possível executar. 


Essa interpretação é correta? Vamos refletir um pouco.

O Karate-Dō [空手道] faz parte do Budō [武道] moderno. Dentro desse paradigma, o caractere Dō [道], que significa ‘A Via’ ou ‘O Caminho’, passou a ser usado no Período Meiji [明治] em substituição ao termo Jutsu [術], anteriormente referido apenas à técnica de luta. Após essa substituição, um sentido filosófico mais amplo foi trazido para as artes marciais japonesas, que visaram preparar as pessoas para todos os aspectos da vida social, não apenas para a guerra. A principal busca no Dō [道] se dá na edificação do cidadão pacífico, como forma de disciplinar o desenvolvimento integral, levando em conta seus aspectos internos (ligados à mente e ao espírito) e externos (ligados ao corpo).

Outro ponto a se destacar é a separação do 
Karate-Dō [空手道] das técnicas com armas, ou seja, do Kobudō [古武道]. Sabe-se que o Kobudō [古武道] se originou na mesma época que o Te [手] ou Tōde [唐手] (nome do antigo Karate [唐手] de Okinawa [沖縄]), quando os agricultores de Okinawa [沖縄] (peichin [親雲上]) utilizaram as ferramentas rurais que possuíam para lutar, ferramentas essas de possível origem chinesa. Apesar de grande parte dos registros ter se perdido nos bombardeios da 2ª Guerra Mundial, os indícios históricos apontam que os peichin [親雲上] desenvolveram o Kobudō [古武道]  de Okinawa a partir do contato com artes de origem chinesa, à mesma época, de forma similar e para o mesmo fim que o Karate-Dō [空手道], sendo as duas artes marciais possíveis irmãs e complementares uma da outra. Além disso, ambas as artes permanecem unidas em muitos estilos, principalmente em Okinawa [沖縄]. Essa “separação” parece se dar quando a arte é levada ao Japão, visto que lá já havia um Kobudō [古武道] próprio de lá. O Shitō-Ryū [糸東流], por exemplo, é um estilo que mantém esta união inalterada até nossos dias.


O caractere Kara (空) significa ‘Vazio’, mas não no sentido de ausência de objetos como interpretamos no ocidente. O vazio aqui representado é um dos cinco elementos presentes em uma Pagoda da tradição budista, sendo o elemento transcendente que conecta e integra todos os outros quatro, ou seja, simboliza a “Consciência”, a “Iluminação”. Partindo desses ajustes de tradução, quando falamos sobre “Caminho das Mãos Vazias”, nos referimos a um caminho filosófico que nos ampliará a consciência através da prática da arte marcial.


Em conversa recente com um colega meu, também professor de Karate-Dō [空手道], debatemos sobre esse significado e optamos por utilizar a tradução “Caminho das Mãos do Vazio”, representando assim o elemento budista e a filosofia presentes em seu nome. Através do “Caminho das Mãos do Vazio”, podemos desenvolver e ampliar nossa consciência com base nesse elemento budista, rumo a uma formação ética e responsável.


Você ainda pode usar como Mãos Vazias, pois é uma tradução válida, desde que a interprete em sua vertente filosófica, não de forma literal. Apenas trazemos aqui uma nova interpretação.


[ATUALIZADO]

Lendo  o texto do link enviado em nossa primeira postagem, ressalto um trecho que, em minha perspectiva, acho muito importante:

As Mãos do Vazio (空手) são as mãos daquele que nesta Terra não tem inimigos. Esse é o verdadeiro Karate [空手]. 

Confiram o texto de Tiago Frosi nesse link externo, pois vale muito a pena:  
http://pintokaratedojo.wordpress.com/2011/06/22/maos-do-vazio/

Osu [押忍]!


Brandel Filho [ブランデル フィリオ]


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REFERÊNCIAS

CAMPS, H.; CEREZO, S. Estudio técnico comparado de los Katas de Karate. Barcelona: Editorial Alas, 2005.


FROSI, T. Ancinhos, remos e arreios! Post Especial de 1000 Visitantes!!! Disponível em http://karatescience.esporteblog.com.br/10963/Ancinhos-remos-e-arreios-Post-Especial-de-1000-Visitantes/


RATTI, O.; WESTBROOK, A. Segredos dos Samurais: As Artes Marciais do Japão Feudal. São Paulo: Madras, 2006.


NAKAZATO, Jyoen; OSHIRO, Nobuko; MIYAGI, Tokomusa; TUHA, Kiyoshi; KOHAGURA, Yoshinobu; HIGAONNA, Morio; TAIRA, Yoshitaka; SAKUMOTO, Tsuguo. Karatê de Okinawa e Artes marciais com Armas. Disponível em: . Acesso em: 20 jun. 2005.


SHINZATO, Yoshihide; BUENO, Fábio Amador. Kobu-Do: as armas antigas de Okinawa. São Paulo: Editora On-line, 2007.

APRESENTANDO O MDV


Osu [押忍]!

Caros leitores, este blog foi desenvolvido com o intuito de explorar as diversas vertentes filosóficas do Karate-Dō [空手道], trazendo para discussão os temas que permeiam essa brilhante arte marcial. Como o Karate-Dō [空手道], este blog surge de forma multicultural e pluritemática, pois nossos estudos e discussões serão pautados pela ótica da Ciência e da Filosofia. Além de debater sobre seus aspectos técnicos e táticos, trataremos o Karate-Dō [空手道] como uma manifestação da cultura humana, tentando entender suas manifestações nas diversas áreas em que está presente (social, cultural, política, etc.).

Mais do que apenas reunir informações, aplicaremos aqui um pensamento crítico sobre tais ideias, no sentido de refletir e evoluir enquanto budōka [武道家], para que desenvolvamos uma arte completa e forte. Como está escrito no portal da Wadō-Ryū Renmei do Brasil [ブラジル和道流連盟]:


O caminho das artes marciais não deve ser meramente técnica de luta, mas o caminho da paz e harmonia.


Aqui seremos colegas, atuando em uma busca maior, a de nos tornarmos verdadeiros karateka [空手家], preocupados com um futuro consciente e responsável. Não apenas meros lutadores, mas Guerreiros em nossos corações.

Osu [押忍]!


Brandel Filho [ブランデル フィリオ]